quinta-feira, 15 de abril de 2021

Um negocinho...

Todos os dias, quando papai chegava do trabalho,  trazia consigo um negocinho. 

    Comprava no trem, na viagem do trabalho para casa. Era um doce. Um salgadinho.  Um brinquedinho ou um livro. Tudo era recebido com muita alegria! Custavam apenas alguns centavos, talvez do troco do pagamento de sua passagem. Para algumas pessoas, era uma bobeirinha apenas, não tinha valor nenhum. Para mim era a concretização de um amor incrivelmente maravilhoso e carregava um valor infinitamente inestimável. 

    Eu sempre dividia tudo com meu inseparável parceiro  de brincadeiras Igor. Então... tudo tinha que vir em dose dupla.  As balas Juquinha, os saquinhos de "camarrão" (biscoitinhos salgados em forma de bolinhas sabor artificial de camarão) e as bolinhas de gude ou outros brinquedinhos pequenos... apenas os livros eram só meus! Mas o Igor podia ver e fazer as tarefinhas de pintar comigo.

    Guardo com carinho o último negocinho que papai me deu... Eu já era adolescente.  E ele trabalhava na reforma da antiga catedral no Centro do Rio, Igreja de Nossa Senhora das Cabeças,  bem próximo do CCBB, na rua Primeiro de Março, Praça XV.  Trouxe para mim dois exemplares de uma coleção sobre a Grécia antiga. Falou umas poucas palavras e disse também que eu podia aprender muito com aquilo. Que era muito importante.

    Papai fugiu da escola. Dizia que a professora batia nele com a palmatória e por isso nunca mais voltou! Ele não foi uma criança fácil. Não se enquadrava nos parâmetros de comportamento, esperados pela escola tradicional da década de 30, no interior de Espírito Santo. Era criativo demais, questionador demais, agitado demais. Encontrou dificuldades em aprender a letra H. E como suas dúvidas não foram sanadas, não aprendeu mais do que o básico para assinar seu nome. Porém,  apesar da experiência traumática, ele sabia o valor dos estudos.  Sabia o valor do  conhecimento. Sempre incentivou seus filhos a aprender, conhecer, explorar o mundo. Ele, assim como mamãe são os principais responsáveis por eu ter conquistado o que sou hoje. Meus estudos, meu trabalho numa escola pública de qualidade, tudo isso é reflexo do desejo de meus pais.  Fico pensando sobre algumas questões: qual o nosso papel de professores na formação (para a vida) de crianças pequenas? Que marcas temos deixado na vida de cada uma delas? Que memórias estamos imprimindo na vida delas? Mas isso é assunto para outro dia. 
    
    Hoje comprei dois desses livrinhos de atividades pra pintar que custaram R$2,00. Mas eu sei, que vai valer muito mais na vida e na memória de minhas filhas. Porque não são apenas dois livrinhos baratinhos. Eles são a concretização de momentos de prazer em família. De ensinamentos e de diversão compartilhados entre as duas. E um ótimo exercício de resgate de minhas memórias de infância.
 
Saibamos dar valor às coisas simples da vida. 

Sobre Comida (e umas aventuras na) Argentina.

 É incrível como a gente pensa que a comida que comemos em nossa casa, na região que a gente vivemos pode ser encontrada em qualquer lugar d...