sábado, 18 de junho de 2022

Formação permanente: Memórias-vida, narrativas de si e projetos profissionais.

 Texto escrito e enviado para a pesquisa da Juliana Godói de Miranda Perez Alvarenga como proposta final da oficina: Encontros de formação permanente em diálogo: memórias-vida, narrativas de si e projetos profissionais. 

Julho de 2021


Eliete Marcelino Dias Andrade. Este é meu nome. Sou filha de Pedro Marcelino e Luzia Corrêa. Meu pai fugiu da escola, era mestre de obras, carpinteiro, sonhador e muito alegre. Morreu de velhice, aos 86 anos, em fevereiro de 2018, feliz da vida por ter conseguido realizar seu maior sonho: voar de avião. Minha mãe era lavadeira, estudou os quatro primeiros anos do ensino fundamental. Mulher guerreira, criativa, professora da vida nos ensinou muito sobre independência financeira e sobre o poder do silêncio. Muito tímida e reservada, sofreu muito com a perda de seu amor. Completariam Bodas de Diamante- 60 anos de casados- em outubro de 2019… mas a morte veio e levou seu marido. Em maio de 2020 ela foi ao seu encontro. Aos 83 anos de vida nos deixou órfãos. O motivo de sua morte? Covid-19! Revoltante. Porém… superado. Temos que agradecer a Deus por tudo o que nos acontece. Foi isso que meus pais nos ensinaram. 

Não poderia falar de mim sem falar de minhas raízes. Falar de minhas origens. Sou a primeira da família a fazer faculdade, estudar em uma Universidade Pública. Sou fruto dos sonhos de meus pais. E tenho muito orgulho de quem eles são. Sim… SÃO! Porque eles vivem em mim. Vivem em tudo e em todos que os conheceram. Por isso creio que jamais morrerão as suas memórias e os seus ensinamentos. 

***


Iniciei meu ensino médio no começo da década de 90, no Colégio Estadual Brasil em Mesquita, um município recém emancipado de Nova Iguaçu. Fiz todo primeiro ano de Formação Geral. Ao final do ano, vi que uma amiga tinha mudado de curso.  Procurei a coordenadora e pedi para mudar também. A minha justificativa era de que não queria sair do Ensino Médio sem uma profissão. A ideia de sair da escola já pronta para o mercado de trabalho era algo recorrente no contexto em que vivia. Nunca tinha ouvido falar em faculdade. Isso era apenas uma palavra grande e sem significados para mim. Iniciei o magistério, ‘pagando’ as disciplinas do ano anterior, fazendo os trabalhos necessários para conseguir cumprir a carga horária exigida pelo curso. Não tinha o sonho de ser professora. Não queria abrir uma escola, como muitas das colegas naquela época pensavam. Queria apenas um diploma com uma profissão. 

Ao finalizar o curso Normal, fui procurar emprego. Trabalhei como saladeira num restaurante do primeiro Shopping da cidade de Nova Iguaçu.  Apesar de ter ouvido alguns colegas citar as palavras “vestibular” “faculdade” “universidade” confesso que ainda não era claro para mim prosseguir os estudos. Minha família era composta por muitos membros. Meus pais não haviam finalizado o ensino fundamental. Mal sabiam assinar seus nomes e fazer algumas poucas continhas. Sou a filha número 7 de 8 filhos. Dos mais velhos, apenas duas haviam finalizado o Ensino Médio. E já trabalhavam…   

Minha cunhada abriu uma escola e fui trabalhar com ela, como professora, apesar dela desejar que eu fosse sua sócia. Não tinha maturidade para fazer uma sociedade. E ainda bem que não fiz. Meus planos eram outros… eu não tinha clareza, mas sabia que não queria aquela vida. 

Interessante que, olhando agora para esse fato em meu passado, vejo com clareza como que uma vida sem planejamento nos leva a realidades não desejadas. 

Como citei anteriormente, não queria ser professora. Porém, não lutei por aquilo que desejava naquele tempo. E isso me fez ir trabalhar numa escolinha particular próximo de minha casa, dirigida por minha cunhada, então pedagoga. Ela realizava seu sonho e queria me incluir no mesmo. Mas o meu sonho não era o mesmo que o dela. Ali entendi que trabalhar com crianças não era tão ruim… compreendi que trabalhar na Educação Infantil me aproximava de meus sonhos de infância: ser desenhista, artista, pintora. Mas não era feliz tendo que cumprir ordens esvaziadas de sentidos, cumprir prazos de conclusão de livros e cópias constantes. Trabalhar com as crianças sem ouví-las ou sem ensiná-las a exercitar seu pensamento crítico não fazia meu gênero. Isso incomodou alguns pais, logo a direção. Houve um desconforto. Saí da escola e fui trabalhar com projetos de EJA. Alfabetização Solidária, vindo do Governo Federal e depois, TRANSformar - projeto custeado pela FIRJAN. Fiz inúmeros concursos para trabalhar nas redes municipais de toda Baixada Fluminense  e das proximidades. Apesar de ter passado em quase todas as provas, não fui chamada. 

Resolvi estudar num PVNC - Pré vestibular para negros e carentes, uma das primeiras turmas deste projeto na Diocese de Nova Iguaçu. Estudávamos todos os finais de semana. Fiz a prova mas não passei. Nesse meio tempo, fiz concurso para  o IBGE e consegui contrato de 3 meses como recenseadora. Foi uma experiência interessante!  Depois, em 2000, fui para um curso comunitário, onde as aulas eram de segunda à sábado. Trabalhava o dia inteiro e a noite ia para o curso pré vestibular. Passei no vestibular em 2001. Entre UERJ de Caxias e a UFF escolhi estudar Pedagogia em Niterói, na UFF. 

Na universidade compreendi melhor que para conquistar o meu lugar eu precisaria estudar bastante. Vencer barreiras do preconceito e me impor enquanto pessoa capaz de lutar por meus ideais. Consegui uma bolsa treinamento - auxílio concedido aos estudantes de baixa renda oriundos de escolas públicas, como era o meu caso -  e uma vaga na Casa do Estudante Fluminense - residência próximo da UFF onde acolhia grupo de estudantes secundaristas e universitários que moravam longe e não tinham como pagar aluguel. Este espaço era gerido pelos próprios estudantes moradores. Fui aproveitar o meu tempo lendo os textos propostos pelos professores nos livros disponíveis na biblioteca, pois não tinha dinheiro para tirar cópias. Minha alimentação eram aquelas oferecidas pelo restaurante universitário. Roubava café da sala dos professores para não passar fome nas tardes do campus do Gragoatá. De manhã, tomava o café da sala onde trabalhava, comendo rapidamente um biscoito de água e sal, sem deixar migalhas e vestígios de minha fome de ontem pelo chão.

Conheci pessoas que mostraram a importância do estudo, do conhecimento, da história que estava vivendo. Aprendi a valorizar a minha história de vida... Minhas dificuldades, minhas origens.   

Tive professoras que me tiravam como exemplo de luta e resistência, por morar longe, acordar às 4h da madrugada e conseguir chegar no horário certo para a aula que iniciava às 7h15. Isso me fortaleceu, me mostrou que eu era capaz de conquistar o que desejasse. Fazia questão de tirar as melhores notas. E assim o fiz. 

Dediquei-me aos estudos o quanto pude, com auxílio das bolsas de treinamento, bolsas de monitoria - onde o estudante passa por um concurso interno para tornar-se auxiliar do professor em determinada disciplina, no meu caso, História da Educação V - e de extensão - O estudante realiza tarefas diversas em trabalhos e projetos abertos para a comunidade externa à Universidade através de cursos e outros afazeres.- Atividades que me ajudaram a formar meu espírito de pesquisadora. 

Em 2003 aconteceu o concurso do magistério em Niterói. Eu não tinha dinheiro para fazer a inscrição. Como citei anteriormente, era uma estudante de baixa renda que contava com uma bolsa, que justamente naquele período estava com o pagamento em atraso.  A professora com quem eu trabalhava como monitora pagou a inscrição do concurso para professores na Rede Municipal. Fiz a prova. Passei. Fui convocada em 2006. Há quinze anos trabalho nesta Rede. Aprendendo diariamente como trabalhar com crianças pequenas.   Tendo parcerias que acrescentaram muito em minha maneira de pensar e agir com as crianças. Seja pela riqueza de suas contribuições, seja pelas maneiras desconcertantes que tinham de lidar com as crianças, e que muito me incomodavam, me fazendo ver que daquela maneira eu não trabalharia.

Hoje estou na terceira Unidade Municipal de Educação, trabalho bem próximo de minha residência porque acredito na importância da qualidade de vida para minha família. Acredito que toda criança deve ter seus pais sempre próximos cuidando, dando atenção, educando e construindo conhecimentos. 

Tenho uma fome de conhecimento que não cabe em mim. Estou em constante busca, seja de mim mesma, seja de conhecimentos diversos que me auxiliem a ser melhor do que sou hoje, sejam de aprendizados que possam acrescentar no desenvolvimento do meu trabalho docente. 

No momento em que percebi que ficaria em casa por tempo indeterminado, em função da pandemia do novo coronavírus, iniciei inúmeros cursos  de aprimoramento profissional e de coisas que me interessavam. Dei início a uma pós graduação em Educação Infantil também. No momento estou na reta final. 

Meus planos para o futuro é desenvolver com prontidão e capricho as tarefas que me cabem no exercício docente dentro da Educação Infantil, na UMEI Regina Leite Garcia. Vencendo os desafios impostos pela pandemia, onde precisamos reinventar as formas de trabalhar na educação através das redes sociais e meios tecnológicos, mesmo que nem todas as crianças tenham acesso a esses recursos. 

Pretendo conseguir registrar com desenvoltura aquilo que me constitui enquanto pessoa e profissional, minhas lembranças, vivências e experiências. Planejo fazer o mestrado, pesquisando e escrevendo sobre a temática da memória e da formação docente. Pretendo escrever um livro. Estou resgatando a história de minha família. Acredito que quanto mais pesquiso sobre o passado de minha família melhor me entendo e compreendo o processo de minha existência. Da mesma forma, busco registrar em meu dia-a-dia o fazer docente. Quanto mais escrevo, mais consigo refletir sobre o que faço. Realizando o movimento de viver, registrar, ler, pensar, refletir, re-viver, re-escrever, re-ler e assim, vou articulando com os estudos que tenho feito, os textos que tenho lido, filmes e palestras que tenho  assistido. Sempre buscando melhorar aquilo que foi escrito.



***


Conforme havia comunicado antes, tenho feito esse movimento de escrita de minhas memórias faz um tempo. Abaixo alguns ensaios que fiz, com o objetivo de reunir elementos para minha autobiografia futura. 



 “Vá estudar!” 

  Na adolescência, aos 13 anos, queria trabalhar para pagar um curso que seria a realização de um sonho: ser desenhista.(...) Minha mãe não gostou da ideia e disse: “_Vá estudar!” 

(...)

Hoje, como eu agradeço a minha mãe por essa proibição...

A professora que sou hoje, é resultado de inúmeras escolhas e renúncias realizadas ao longo da minha vida. Cada escolha tem uma consequência. O meu hoje é composto pela concentração das consequências das escolhas que vivi no passado.

Deixar o passado para trás é ainda uma dificuldade para mim. Pois para caminhar adiante e não cometer os mesmos erros, eu preciso consultar sempre o meu passado. Talvez por isso, às vezes, ele chega me assombrando.

Falar do passado, visitar o passado é realizar a maior viagem  possível. Reviver passos, passagens, conversas e relacionamentos bons e ruins que me moldaram naquilo que hoje me tornei.

Relações humanas às vezes são traumatizantes. E alguns traumas eu vivi em minha vida profissional que fizeram o psicólogo do Setor de Saúde do Servidor pedir permissão para escrever sobre o meu caso: Como uma professora que sofre com a Síndrome de Burnout, depois de 2 a 3 anos afastada da sala de aula, decide retornar? Geralmente, 99% dos casos, os profissionais são realocados em outros espaços e/ou funções... ou pedem a aposentadoria precoce.

Mas Deus fez tudo acontecer em seu tempo.

***

“06 de junho de 2020.”

         Iniciei a leitura do Referencial Curricular para a Educação Infantil da Rede Municipal de Niterói e um sentimento forte surgiu em meu peito. O primeiro e maior sentimento foi o de PERTENCIMENTO. Eu me vi naquele documento. No início, quando se trata do levantamento histórico da Educação Infantil no município, são relatados vários eventos que aconteceram na cidade para discutir a Educação no município. Eventos estes que tive a oportunidade de participar, discutir, falar, escrever, votar, sugerir...

         Ao ler as páginas 22/23 sobre o professor pesquisador, um fogo se acendeu em meu peito. Lembrei das discussões feitas na UFF sobre o assunto, quando ainda era apenas uma simples graduanda do curso de Pedagogia.

         O professor pesquisador se constitui observador e participante, ator e autor de sua construção de conhecimentos. Vai aprendendo à medida que também vai ensinando.

         Quando estava escrevendo minha monografia de graduação, fui orientada por uma excelente professora que um dia me falou da importância da autoria, uma escrita de sentidos e com a marca de quem a escreve. Ela me ensinou sobre a importância do registro no caderno de campo. Foi bastante difícil, e ainda é, realizar o registro diário de minhas impressões e observações a respeito de minha prática docente. Mas eu tento! Esforço-me. Não pretendo desistir.

         Escrever para mim é mais que uma necessidade de sobrevivência. É mais que um simples hobby. É um ato de resistência. É algo que se torna insubstituível em minha vida. Passei bastante tempo distante dessa prática tão prazerosa. Hoje resolvi voltar às minhas primeiras paixões... minhas paixões mais primitivas.

***

REDAÇÃO DA PROVA DE CONCURSO PARA PROFESSORA DE NITERÓI -2003.

Os homens vivem o presente, a partir da memória construída no passado e com os olhos voltados para os projetos futuros. Da memória construída no passado destacam-se mitos que permanecem como agradáveis lembranças que o tempo não consegue destruir. Um desses mitos, indelével na lembrança de muitos homens, é o da primeira professora.  

Com as rápidas transformações processadas nos valores que sedimentam a sociedade, com o advento de uma era marcada pelo sentimento do descartável, ainda é possível por parte dos profissionais de educação, a construção do mito da primeira professora?


 Este foi o tema da redação da prova para professor I, do município de Niterói do ano de 2003. Concurso que fiz, passei e fui chamada para trabalhar.

Hoje (2020) li a minha redação e o meu rascunho... Definitivamente cheguei à conclusão que, nesses 14 anos em que atuo na rede, eu tenho me tornado um mito... Uma professora inesquecível para muitos alunos. Isso é revigorante!


A marca

“Quem não se recorda – de forma agradável ou não – de sua primeira professora? Quem não o faz com saudades desse tempo pueril de momentos deliciosamente inesquecíveis e ao mesmo tempo, traumatizantes?

“Tia Vera”, a minha primeira professora, pode não ter deixado marcas muito profundas em minha vida. Mas ainda lembro de como era bom terminar logo os exercícios para pintar os desenhos que ela fazia em meu caderno: uma casinha com chaminé, uma flor, uma árvore às vezes. (...)

Todo mito é construção coletiva. É resultado de um conjunto de saberes, atitudes, conhecimentos, costumes vivenciados pelo coletivo. Sendo assim, há marcas que são deixadas em inúmeras pessoas onde em cada uma delas proporciona um significado diferente. 


[Ao professor faz-se necessário] (…) registrar e refletir a sua prática docente e interagir com a sua turma. Podendo tornar-se uma valiosa fonte de inspiração para os mesmos. Ou para aqueles que ouvirem falar de seus feitos.

Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da Autonomia, relata um momento crucial em sua vida de escritor: um olhar beneplácito de seu professor de redação. Não era o primeiro professor. Mas foi aquele que proporcionou a confiança que ele precisava para dar início a sua vida de autor de maravilhosas obras.

Ainda é possível mudar. Ainda é possível permanecer na memória das novas crianças como aquela professora que me ensinou a aprender. Deixando hoje em nossas mãos a responsabilidade de nos tornarmos uma marca positiva na vida dessas crianças. Um mito.”

***



 


Fazer scrapbook sempre foi um desejo meu. Durante a quarentena busquei cursos gratuitos na internet que me ajudaram a desenvolver esta técnica. Tenho feito um álbum contando a minha história através de fotos em páginas decoradas. Ao lado, a página sobre a minha profissão com a foto de minha formatura na UFF em 2006 e uma foto em meu trabalho, na UMEI Renata Magaldi em 2008.





quinta-feira, 16 de junho de 2022

Pensamentos que me afligem

 09 de junho de 2022.


Projeção de Van Gohg no MAC Niterói em 29/05/2022



Mensagem enviada para minha orientadora do mestrado e para a psicóloga que me acompanha:


“É comum esses pensamentos quando estamos no processo de autobiografia?


Às vezes me pego pensando se não é prepotência, (ou outra coisa dessas que ainda não sei denominar) escrever sobre mim mesma😢 tem hora que fico cabisbaixa pensando o porquê disso tudo...o porquê dessas escritas, dessa pesquisa, das anotações e reflexões... a quem interessaria isso? Essa vivência? As coisas todas que tenho enfrentado?



Às vezes penso em meu marido e o quanto ele me ajudou até aqui. E como hoje em dia ele sente falta e me cobra determinadas atividades que não estão em meus planos realizar ou vivenciar. A cobrança de uma postura de mulher meio Amélia, que nunca estive disposta a assumir. 

Fico triste. 

Mas ao mesmo tempo procuro me recompor e olhar para minha trajetória de vida. Vejo tudo que enfrentei. Desde a saudade da família e a fome na Casa do Estudante Fluminense pra me manter estudando, à falta de grana pro ônibus, que me levou à humilhação de pedir carona ao fiscal pra voltar pra casa, ao fato de ter uma professora da universidade a pagar minha inscrição de concurso público... a qual eu passei e estou trabalhando há 16 anos. 

Cada passo desse, e muitos outros, me revigoram para não menosprezar o meu pensar e o meu fazer.”

...

Pensei nisso e quis que soubesse. 

Já marquei terapia pra sábado! rs 🙈🤭


Resposta da Inês Bragança, minha orientadora:

Que reflexão mais forte e sensível, guarda no seu diário. 

A pergunta sobre a importância da escrita autobiográfica consiste em uma discussão do nosso campo de pesquisa. 

Sim, nossas histórias importam! Ao falar de vc traz os muitos outros que te habitam. Quantas lutas para estudar, para ser professora e também para ser mulher, mãe… sua história ensina e inspira. 

Obrigada pela confiança da partilha 🌸


Resposta da Cláudia Caliu, minha psicoterapeuta:

Eliete, que linda sua reflexão!

Bem profunda! Bom trabalhar com paciente assim! Amanhã iremos conversar sobre td isso🙏🏻😘🌷🥰



quinta-feira, 2 de junho de 2022

Na casa da vovó bisa...



     No ano de 2019, trabalhando com uma turma de crianças de 4 anos de idade, numa escola de educação infantil pública na zona norte da cidade de  Niterói-RJ, vivenciei algo que mudou definitivamente a minha maneira de olhar e pesquisar o meu cotidiano.

    Era um dia comum, como outro qualquer. Estávamos na rodinha de conversa, como fazíamos diariamente todas as manhãs ao retornar do desjejum. As crianças conversavam e cantavam as músicas que gostavam. De repente, algumas crianças começaram a falar sobre seu final de semana, as brincadeiras na casa da avó, as comidas gostosas feitas pela bisa. 

Naquela semana faria um ano de falecimento do meu pai. 

Fiquei muito emocionada com as coisas que ouvia das crianças. Lembrei das minhas vivências com meu pai e comecei a chorar. As lágrimas desciam de meus olhos como água numa cachoeira em dia de chuva. Minha colega de trabalho convidou-me a sair da sala, respirar e me recompor. Eu recusei. Escolhi ficar na sala e viver aquela emoção junto das crianças. Até para que elas vissem e compreendessem que eu também choro. Adultos também ficam tristes, choram, sentem saudades assim como as crianças. Era o início do ano letivo.

Algumas crianças correram para me abraçar, outras sentiram vontade de chorar comigo, uma criança foi logo pegar um copo de água para eu beber. Elas dedicaram-me todo amor, carinho e aconchego do mundo naquele momento. 

Os pequenos queriam saber o motivo de minhas lágrimas. Respondi que meu pai havia morrido e eu estava sentindo saudades. Meu coração doía. Estava partido. Uma menina falou que o seu pai também tinha morrido e ela também sentia saudades dele.  Outra disse que havia perdido o seu avô, teve até quem lembrasse da morte de seu cachorro. Foi um momento único de cumplicidade das dores de nossos corações. A outra professora lembrou uma música que cantamos juntos naquele momento: Era uma vez, da cantora e compositora Kell Smith. Giovanna comentou que seu pai dizia sempre que queria voltar a ser criança.  E a conversa foi fluindo dessa maneira. O assunto durou vários dias. E em todas as rodinhas de conversas seguintes, alguém pedia para cantarmos a música Era uma vez. 

Refletimos sobre a letra da canção. Decidimos aprender a cantá-la. Contamos com o auxílio e a parceria de um pai que tocava violão. Na mesma hora em que conversamos, ele aceitou o convite de nos ajudar! E disse: "Nossa! A minha mãe pediu para eu aprender a tocar essa música porque ela ama, acha linda!" Foram 6 semanas ensaiando com este generoso pai, que em seus dias de folga no trabalho, na hora da entrada ou da saída das crianças da escola, nos alegrava com seu violão. 

Organizamos uma pesquisa onde cada criança deveria perguntar em casa quais lembranças seus pais tinham do tempo de infância, da casa de seus avós, resgatar algum objeto ou foto e nos apresentar no dia marcado.    Eu também busquei em minhas memórias aquilo que me constituía.

Num sábado letivo, montamos na sala um verdadeiro museu. Cada objeto, com suas histórias narradas pelos familiares das crianças, foram expostos para apreciação de todos. Reservei um cantinho para colocar os objetos de minhas memórias (que não eram poucos). Montei um fogão de lenha com tijolos, madeira, uma grade de ferro e sobre ele, uma chaleira. Pendurado na parede havia a peneira que minha avó usava para despelar o amendoim no quintal. Lembro-me que eu adorava brincar debaixo da chuva de cascas de amendoim torrado, quando ela sacudia, fazendo rebolar aquela peneira no ar e soprando para separar as cascas dos caroços de amendoim.  (...) 



Na parede, pendurei o terno cinza de meu querido pai. O terno que ele usou no casamento de seus primeiros quatro filhos: Neuzilene, Deuzelina, Maria Dinei e Adeir. Como eu queria que ele tivesse usado em meu casamento também. Mas minhas irmãs não deixaram. Disseram que era velho! Ao lado do terno, um vestido verde, quadriculadinho e de botões, todo costurado a mão, feito e usado por minha tia Itelvina. Ela era a irmã mais velha de meu pai. (Papai era o irmão caçula de um grupo de 8 filhos de meu avô) Passou seus últimos anos de vida em companhia de seu irmãozinho.  

Neste mesmo cantinho coloquei a sanfona de papai, sua velha dentadura, um par de óculos que encontrei em seu bolso do paletó,    várias fotos com ele de terno cinza levando minhas irmãs ao altar. Tinha também algumas (muitas) notas e moedas de Réis, Cruzeiros e cruzados. Dinheiro que ele guardou inocentemente debaixo do colchão, mas que quando encontrou, havia perdido a validade.  

Coloquei como som de fundo a canção "A casa da vovó" cantada pela dupla Lourenço e Lourival, composição de Luiz de Castro e Muniz Teixeira, dentre outras músicas que lembravam o tempo da vovó. 



 A participação das famílias neste trabalho foi emocionante. As fotos antigas que recebemos e as cédulas também antigas encantaram a todos. 


Consegui uma parceria com a marcenaria da rua da escola e o marceneiro fez uma parede de casinha com porta e janela. Cobri com tecido que imitava tijolinhos. Ornamentei de maneira que ficou exatamente como a entrada da casa de uma vovó. Debaixo da janela, coloquei uma cadeira reclinada e nela uma grande boneca de tecido que fiz com a aparência de uma vó, cabelos de lã branquinha penteado em coque, óculos, um chale cobrindo as pernas para aquecer. Na janela uma cortina de chita e duas violetas coloridas. Na porta um pé de antúrio (que levei da casa de minha mãe) e um caminho feito de flores coloridas de kalanchoe. 




Essa experiência levou-me a procurar entre os adultos das famílias das crianças  lembranças que os remetiam ao tempo que eram crianças e as aventuras que viveram na casa de suas avós. A participação das famílias foi surpreendente. Cada família enviou um pequeno relato e um objeto que representava suas memórias de infância. Lembro de uma criança cuja mãe enviou uma tigela de cerâmica muito antiga, onde a sua avó (bisa da criança) fazia receitas deliciosas, dentre elas o saboroso bolo de fubá. Outra família enviou 3 máquinas de costura que tinham mais de 100 anos de idade. Um quadro com a foto da formatura da vó na turma de costura, um conjunto de toucas infantis costuradas pela bisa da criança, que naquele momento era a última criança que as usou. Esta família foi muito especial, pois no dia da nossa exposição, estavam presentes: a criança, a mãe e o irmão, as tias e os avós dona Lindaura e seu Onofre. Este vovó simpático que de vez em quando ia na escola buscar sua neta, na primeira vez que me viu falou: "Com todo respeito, professora, a senhora não me é estranha... tenho por mim que eu já vi a senhora quando era criança... sua família mora onde?" Eu respondi sorridente que era de Nova Iguaçu. Ele insistiu querendo saber se algum momento havíamos morado no Cubango, onde residira há um tempo. Respondi negativamente e lembrei que o meu pai havia trabalhado na construção da ponte Rio-Niterói, na altura do Ponto Cem Réis - um ponto de referência para um lugar específico no bairro Fonseca, descida da Ponte.  Foi então que ele perguntou o nome de meu pai e o bairro que morava. Quando falei que seu nome era Pedro e morava em Austin, Nova Iguaçu, seus olhos brilharam e ele questionou: " perto de Queimados?" Respondi que sim e já com os olhos marejados nós dois, ele afirmou: "Eu conheço seu pai! Eu fui na sua casa quando você era pequena, bem pequena..." Naquele momento eu chorei de emoção. Ao dizer que meu pai havia falecido, ele ficou emocionado também.   Essa cena não sai da minha mente. E todas as vezes que lembro sinto forte a mesma emoção. Seu Onofre, avô da Florzinha, foi amigo do meu pai, me conheceu quando criança... Que mundo pequeno!




+


No dia da exposição, convidei a minha mãe para participar, como uma forma de homenageá-la, fiz um vídeo de sua entrada na sala, olhando toda aquela "muntuera de coisa" de nossa família.      







Casa da Vovó

Lourenço e Lourival


A casa da vovó é uma beleza
É uma casa cheia de fartura
A casa da vovó não tem tristeza
É realmente uma gostosura

Tem forno de tijolo no terreiro
Tem ovos de galinha caipira
Bastante porco gordo no chiqueiro
Tem tudo que a gente admira

A casa da vovó é uma maravilha
Todo fim de semana reúne a família
Vovó fica contente ao lado dos netinhos
Abraça sorridente seus netos com carinho

Composição: LUIZ DE CASTRO / Muniz Teixeira.

Bênção, Mãe!

 


 




Todas as vezes que eu saía para viajar, passava primeiro na casa de minha mãe para pedir-lhe a bênção. E quando retornava de viagem também.

Esta foto retrata uma das últimas viagens que fiz, antes de sua morte. Estava indo para Paraty com meus filhos e marido. Eram nossas férias de janeiro de 2020. Passei por lá, pedi a bênção e fiz essa foto. 

Quando voltei de outra viagem, em fevereiro, passei por lá. Levei presentes. Era sexta-feira, ela disse: "Fica aqui até domingo..." Eu não fiquei. Tinha um compromisso no sábado, 29 de fevereiro. Aniversário de uma criança da escola em que eu trabalhava. Voltei para casa e fui ao aniversário. 

Este foi o último encontro presencial que tive com ela. 

Ela sempre dizia que eu sabia aproveitar a vida, porque viajava bastante. 

Não éramos muito de conversar. Mas no fundo eu sabia que minha mãe sentia orgulho da mulher e mãe que me tornei.  Ela também não era muito de falar. Mas sua sabedoria era infinita! 

Luzia morreu no dia 17 de maio de 2020. Causa da morte: Parada cardíaca ocasionada pela Covid-19. Em meio a uma pandemia louca que assolou o mundo inteiro neste século esquisito. 

Sobre Comida (e umas aventuras na) Argentina.

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