Gostaria de começar agradecendo por sua disponibilidade em dar as suas mãos e caminhar comigo na construção dessa dissertação-diário tão importante em minha vida.
5 de abr. de 2024, 18:47 |
Este é um espaço de reflexão e anotações. Resgate de minhas memórias e articulação com as vivências que tenho nos dias atuais. O objetivo aqui é escrever e refletir sobre a vida. Espero conseguir!
5 de abr. de 2024, 18:47 |
Fonseca, 09/09/2024.
Quando era criança, morava numa casa relativamente grande, com meus pais, meu irmão, minhas seis irmãs, duas primas e um primo. Era uma casa cuja sala enorme comportava um sofá velho, sempre coberto por um pano - um pedaço de lençol, de cortina ou qualquer outra coisa. Numa parede havia uma estante imensa, de madeira de lei, em tom escuro, linda demais, que uma de minhas irmãs mais velhas devem ter ganhado de suas patroas, assim como o sofá e posteriormente a mesa com cadeiras. Naquela estante, minha mãe posicionava inúmeras peças de cerâmicas, lembro de um lindo cavalo empinando, um cisne com um buraco nas costas, um jarro de flores, um barril com tampa (que eu herdei) e várias outras peças lindas e horrorosas.
Mas o objetivo desse texto é falar de um tapete marrom peludo. Seus pelos eram duros, de tão velho! Seu desenho era estranho aos meus olhos de criança curiosa. Suas cores me lembravam alguns animais como leão e macacos, eram vários tons de marrom, bege, sépia, amarelo, laranja. Enfim, acredito que o desenho que se escondia por debaixo daquelas cores era na verdade um arranjo floral daqueles tapetes lindos do extremo oriente.
Esse tapete grande, que cobria todo chão do nosso quarto, era um dos lugares favoritos para brincar e dormir. Em nosso quarto tinham duas camas de solteiro e uma beliche, um guarda-roupas e muitos quadros pequenos pendurados na parede. Uma janela voltada para o muro do vizinho, fazia com que o vento não circulasse direito dentro do quarto. Dessa forma, para aguentar o calor, colocávamos amarrado na grade da janela, o velho ventilador vermelho - apelidado de helicóptero, por causa de seu barulho ensurdecedor.
Voltando ao tapete, minhas irmãs mais velhas trabalhavam em "casa de madame" e dormiam no local de segunda a sexta-feira. Eu adorava quando elas chegavam do trabalho na sexta feira a noite e traziam sempre um mimo para a pequena Lelê, euzinha aqui! No dia seguinte, como a casa estava sempre cheia, dividia-se as tarefas e cada uma ou duas ficava responsável por limpar um cômodo da casa. Geralmente quem ficava com o quarto, tinha que retirar o velho tapete, levá-lo para o quintal, pendurá-lo no varal ou no muro e bater delicadamente com o cabo da vassoura para que a poeira e a terra acumulada da semana se desprendesse da peça. Era como um ritual maravilhoso, que em minha memória se destaca pela poeira que se elevava ao céu e o pó que, pesado, caía ao chão. A cada movimento de pancada do cabo de vassoura sobre aquele tapete, eu admirava a cena da poeira que subia levemente e do pó que descia triste e sobrecarregado de tantas pisadas.
Mais maravilhoso era quando aquela irmã que amava lavar tudo, principalmente na semana do natal, pegava o lindo e velho tapete marrom para jogar água, bastante sabão em pó e muita esfregação com vassoura de piaçava e escovinha de roupa. a gente penteava os pelos daquele tapete como se fossem pelos de uma fera na savana. Demorava horas, ou até mesmo dias, para que o velho tapete marrom ficasse totalmente seco. Por esse motivo, lavá-lo, era uma tarefa delicada e pontual. Somente acontecia uma vez ao ano e nos dias de verão mais intensos, para que secasse rápido e ligeiro.
Após o delicioso banho de espuma no quintal de casa ou na varanda, sendo enxaguado com ajuda da mangueira de obra do nosso pai, e uma longa exposição ao sol escaldante para secar por completo, era chegado o momento de coloca-lo lugar. Depois de ter faxinado o quanto, trocado os lençóis e as fronhas dos travesseiros, com os vidros da janela transparente de limpo, sem uma poeirinha para contar história, era hora de estender aquela lindeza no chão do quarto. Ele vinha enrolado, nos ombros de duas das minhas irmãs e/ou primas que cuidadosamente colocavam o velho tapete marrom sobre o piso de vermelhão e o abria, fazendo-o rolar e subir uma fragrância leve de flores como nos comerciais de sabão em pó da década de oitenta. Ah! Que lembranças gostosas de se revisitar... Sinto-me agora como a pequena Lelê que deitava e rolava - literalmente- sobre os duros pelos do velho tapete marrom, agora perfumados e quase macios. Nesses momentos era como se eu viajasse para bem longe e de braços e pernas abertas, deitada sobre ele, fingia estar sobre a neve fazendo anjinhos, abrindo e fechando os membros do corpo. Ou outras cenas e lugares que vinham e se iam povoando meu imaginário de criança curiosa e cheia de energia para viver.
É incrível como a gente pensa que a comida que comemos em nossa casa, na região que a gente vivemos pode ser encontrada em qualquer lugar d...