Quando era criança, nem sabia o que era ceia de Natal. Só passei a entender o sentido cristão do Natal quando, no final da minha primeira década de existência, participei das novenas de Natal nas casas das vizinhas de minha mãe e via suas casas repletas de piscas-piscas, enfeites, árvores e um presépio de gesso. Ficava hipnotizada com as luzes piscapiscantes e tentava competir com elas fechando e abrindo os olhos.
Conforme fui crescendo, vi minhas irmãs trazendo para casa aquela nova cultura de enfeitar a casa. Não tínhamos dinheiro para comprar árvores lindas e caras, então enfeitava galhos secos com algodão, fitilhos reutilizados, caixinhas de fósforos embrulhadas com papel de presente antigos. Aos poucos as coisas foram mudando. Aos doze anos recebi o meu primeiro presente do Papai Noel. Coloquei meu sapatinho velho na janela do meu quarto e, perto da meia noite me espremi entre a grade e o vidro para tentar olhar o céu estrelado e conseguir ver o bom velhinho. Minhas irmãs compraram as chuquinhas gêmeas para mim e um ursinho preto muito bonito, mas não era fofinho. Fiquei muito feliz com o presente! Mas os comentários que ouvi também me deixaram triste: "Ah, mas ela já está grandinha para brincar com bonecas..." De fato... eu nem brincava de bonecas. Mas amei ganhar um presente de Natal. Sabia que não tinha sido do papai Noel, afinal ele nunca ouviu minhas preces! Nessa época, comi melão pela primeira vez, quando o namorado de uma de minhas irmãs armou uma ceia de Natal em nossa varanda.
Depois desse dia, foi inaugurada a "noite feliz" em nossa família. Como não dava para o "papai Noel" comprar presente para todos, resolveram fazer amigo-oculto. Assim todos ganhariam presentes. Lembro que sempre ganhava de presente de aniversário calcinhas, roupas e caixa de bombons. De amigo oculto ganhava coisas inúteis, como um elefante branco de parafina com enfeites vermelhos imitando a cultura do povo indiano. Passei a sugerir agenda. Ganhei, durante muito tempo a mesma coisa... aff. Mas um dia ganhei um relógio que vinha com pulseiras coloridas para trocar. Foi o máximo!
E as mulheres de minha casa sempre apressadas fazendo faxina de natal, preparando comidas diferentes, pintando a casa, fazendo sucos e gelo. Organizando tudo para a noite participarem da missa de Natal e em seguida, da ceia.
A mais linda tradição de Natal que carrego comigo é reunir a família ao redor da mesa no jantar e orar, o pai-nosso, um salmo ou o evangelho do dia e juntos receber o verdadeiro Deus e verdadeiro Homem em nossos corações.
As mulheres sempre agindo... e os homens? Sempre bebendo!
A nova geração que viu e que viveu a realidade das mulheres incansáveis que lavavam, limpavam, pintavam suas casas, hornamentavam, armavam árvore, penduravam os piscas-piscas, fritavam as rabanadas, faziam os pudins, o bacalhau, decoravam a mesa de frutas, tudo sozinhas ou em companhia de outras poucas mulheres... essa nova geração sente falta dessa emoção do natal regada pelo suor de nossas mães e irmãs e tias. Incluo-me no time daquelas que são incapazes de fazer igual... Por não querer simplesmente ou por não ter fôlego para cumprir tantos afazeres.
É notório que