quinta-feira, 12 de maio de 2022

Morreu de saudade











Era domingo... e eu não fui à igreja.
Era domingo... e eu não fui à praia.
Era domingo...  e eu não saí de casa  
Era domingo... eu não fui almoçar com a minha mãe, como sempre fazia.
Era domingo... terceiro domingo de maio de 2020. Dia 17. 
Era pouco mais de 10h da manhã quando o telefone tocou. Meu marido atendeu no quarto e eu atendi na sala. Ouvi a voz embargada de minha irmã dizendo a ele: " ...minha mãe partiu."
Meu chão sumiu.
Meu horizonte desapareceu.
Minha voz se escondeu.
Minhas lágrimas secaram naquele momento. Com a lembrança imediata de uma conversa em minha infância quando mamãe dizia que não queria ninguém chorando a sua morte.
Fiquei desnorteada. Estarrecida. Empalidecida. Aborrecida. Revoltada. Um misto de sentimentos. Um mix de emoções. 
Não fiquei triste. Minha mãe estava bem idosa e eu já sabia que a qualquer momento ela voltaria para a casa do Pai Celeste. Sua morte era uma certeza sem data marcada para mim.
Fiquei aborrecida sim porque ela viveu seus últimos meses, semanas e dias na saudade. E saudade não é uma coisa boa de se levar dessa vida.
Fiquei revoltada sim, porque ela virou mais 1 na estatística mundial... na estatística deste país governado por seres inconsequentes e energúmenos. 
Foi contaminada pelo Covid-19 sem ter saído de casa. 
Ficou doente e só depois da confirmação, houve certa preocupação em determinados cuidados sanitaristas por parte de muita gente do entorno dela.
Sua morte foi caracterizada por uma parada cardíaca em função do Covid-19.
Minha mãe morreu de Covid-19. Poderia ter morrido de velhice, e eu estaria feliz, como fiquei com a morte de meu pai. Ele se foi feliz... presava a felicidade, a alegria. 
Ela morreu de tristeza.
Ela morreu de saudade.

 

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