No ano de 2019, trabalhando com uma turma de crianças de 4 anos de idade, numa escola de educação infantil pública na zona norte da cidade de Niterói-RJ, vivenciei algo que mudou definitivamente a minha maneira de olhar e pesquisar o meu cotidiano.
Era um dia comum, como outro qualquer. Estávamos na rodinha de conversa, como fazíamos diariamente todas as manhãs ao retornar do desjejum. As crianças conversavam e cantavam as músicas que gostavam. De repente, algumas crianças começaram a falar sobre seu final de semana, as brincadeiras na casa da avó, as comidas gostosas feitas pela bisa.
Naquela semana faria um ano de falecimento do meu pai.
Fiquei muito emocionada com as coisas que ouvia das crianças. Lembrei das minhas vivências com meu pai e comecei a chorar. As lágrimas desciam de meus olhos como água numa cachoeira em dia de chuva. Minha colega de trabalho convidou-me a sair da sala, respirar e me recompor. Eu recusei. Escolhi ficar na sala e viver aquela emoção junto das crianças. Até para que elas vissem e compreendessem que eu também choro. Adultos também ficam tristes, choram, sentem saudades assim como as crianças. Era o início do ano letivo.
Algumas crianças correram para me abraçar, outras sentiram vontade de chorar comigo, uma criança foi logo pegar um copo de água para eu beber. Elas dedicaram-me todo amor, carinho e aconchego do mundo naquele momento.
Os pequenos queriam saber o motivo de minhas lágrimas. Respondi que meu pai havia morrido e eu estava sentindo saudades. Meu coração doía. Estava partido. Uma menina falou que o seu pai também tinha morrido e ela também sentia saudades dele. Outra disse que havia perdido o seu avô, teve até quem lembrasse da morte de seu cachorro. Foi um momento único de cumplicidade das dores de nossos corações. A outra professora lembrou uma música que cantamos juntos naquele momento: Era uma vez, da cantora e compositora Kell Smith. Giovanna comentou que seu pai dizia sempre que queria voltar a ser criança. E a conversa foi fluindo dessa maneira. O assunto durou vários dias. E em todas as rodinhas de conversas seguintes, alguém pedia para cantarmos a música Era uma vez.
Refletimos sobre a letra da canção. Decidimos aprender a cantá-la. Contamos com o auxílio e a parceria de um pai que tocava violão. Na mesma hora em que conversamos, ele aceitou o convite de nos ajudar! E disse: "Nossa! A minha mãe pediu para eu aprender a tocar essa música porque ela ama, acha linda!" Foram 6 semanas ensaiando com este generoso pai, que em seus dias de folga no trabalho, na hora da entrada ou da saída das crianças da escola, nos alegrava com seu violão.
Organizamos uma pesquisa onde cada criança deveria perguntar em casa quais lembranças seus pais tinham do tempo de infância, da casa de seus avós, resgatar algum objeto ou foto e nos apresentar no dia marcado. Eu também busquei em minhas memórias aquilo que me constituía.
Num sábado letivo, montamos na sala um verdadeiro museu. Cada objeto, com suas histórias narradas pelos familiares das crianças, foram expostos para apreciação de todos. Reservei um cantinho para colocar os objetos de minhas memórias (que não eram poucos). Montei um fogão de lenha com tijolos, madeira, uma grade de ferro e sobre ele, uma chaleira. Pendurado na parede havia a peneira que minha avó usava para despelar o amendoim no quintal. Lembro-me que eu adorava brincar debaixo da chuva de cascas de amendoim torrado, quando ela sacudia, fazendo rebolar aquela peneira no ar e soprando para separar as cascas dos caroços de amendoim. (...)
Na parede, pendurei o terno cinza de meu querido pai. O terno que ele usou no casamento de seus primeiros quatro filhos: Neuzilene, Deuzelina, Maria Dinei e Adeir. Como eu queria que ele tivesse usado em meu casamento também. Mas minhas irmãs não deixaram. Disseram que era velho! Ao lado do terno, um vestido verde, quadriculadinho e de botões, todo costurado a mão, feito e usado por minha tia Itelvina. Ela era a irmã mais velha de meu pai. (Papai era o irmão caçula de um grupo de 8 filhos de meu avô) Passou seus últimos anos de vida em companhia de seu irmãozinho.
Neste mesmo cantinho coloquei a sanfona de papai, sua velha dentadura, um par de óculos que encontrei em seu bolso do paletó, várias fotos com ele de terno cinza levando minhas irmãs ao altar. Tinha também algumas (muitas) notas e moedas de Réis, Cruzeiros e cruzados. Dinheiro que ele guardou inocentemente debaixo do colchão, mas que quando encontrou, havia perdido a validade.
Coloquei como som de fundo a canção "A casa da vovó" cantada pela dupla Lourenço e Lourival, composição de Luiz de Castro e Muniz Teixeira, dentre outras músicas que lembravam o tempo da vovó.
A participação das famílias neste trabalho foi emocionante. As fotos antigas que recebemos e as cédulas também antigas encantaram a todos.
Consegui uma parceria com a marcenaria da rua da escola e o marceneiro fez uma parede de casinha com porta e janela. Cobri com tecido que imitava tijolinhos. Ornamentei de maneira que ficou exatamente como a entrada da casa de uma vovó. Debaixo da janela, coloquei uma cadeira reclinada e nela uma grande boneca de tecido que fiz com a aparência de uma vó, cabelos de lã branquinha penteado em coque, óculos, um chale cobrindo as pernas para aquecer. Na janela uma cortina de chita e duas violetas coloridas. Na porta um pé de antúrio (que levei da casa de minha mãe) e um caminho feito de flores coloridas de kalanchoe.
Essa experiência levou-me a procurar entre os adultos das famílias das crianças lembranças que os remetiam ao tempo que eram crianças e as aventuras que viveram na casa de suas avós. A participação das famílias foi surpreendente. Cada família enviou um pequeno relato e um objeto que representava suas memórias de infância. Lembro de uma criança cuja mãe enviou uma tigela de cerâmica muito antiga, onde a sua avó (bisa da criança) fazia receitas deliciosas, dentre elas o saboroso bolo de fubá. Outra família enviou 3 máquinas de costura que tinham mais de 100 anos de idade. Um quadro com a foto da formatura da vó na turma de costura, um conjunto de toucas infantis costuradas pela bisa da criança, que naquele momento era a última criança que as usou. Esta família foi muito especial, pois no dia da nossa exposição, estavam presentes: a criança, a mãe e o irmão, as tias e os avós dona Lindaura e seu Onofre. Este vovó simpático que de vez em quando ia na escola buscar sua neta, na primeira vez que me viu falou: "Com todo respeito, professora, a senhora não me é estranha... tenho por mim que eu já vi a senhora quando era criança... sua família mora onde?" Eu respondi sorridente que era de Nova Iguaçu. Ele insistiu querendo saber se algum momento havíamos morado no Cubango, onde residira há um tempo. Respondi negativamente e lembrei que o meu pai havia trabalhado na construção da ponte Rio-Niterói, na altura do Ponto Cem Réis - um ponto de referência para um lugar específico no bairro Fonseca, descida da Ponte. Foi então que ele perguntou o nome de meu pai e o bairro que morava. Quando falei que seu nome era Pedro e morava em Austin, Nova Iguaçu, seus olhos brilharam e ele questionou: " perto de Queimados?" Respondi que sim e já com os olhos marejados nós dois, ele afirmou: "Eu conheço seu pai! Eu fui na sua casa quando você era pequena, bem pequena..." Naquele momento eu chorei de emoção. Ao dizer que meu pai havia falecido, ele ficou emocionado também. Essa cena não sai da minha mente. E todas as vezes que lembro sinto forte a mesma emoção. Seu Onofre, avô da Florzinha, foi amigo do meu pai, me conheceu quando criança... Que mundo pequeno!
No dia da exposição, convidei a minha mãe para participar, como uma forma de homenageá-la, fiz um vídeo de sua entrada na sala, olhando toda aquela "muntuera de coisa" de nossa família.
Casa da Vovó
Lourenço e Lourival
A casa da vovó é uma beleza
É uma casa cheia de fartura
A casa da vovó não tem tristeza
É realmente uma gostosura
Tem forno de tijolo no terreiro
Tem ovos de galinha caipira
Bastante porco gordo no chiqueiro
Tem tudo que a gente admira
A casa da vovó é uma maravilha
Todo fim de semana reúne a família
Vovó fica contente ao lado dos netinhos
Abraça sorridente seus netos com carinho
Composição: LUIZ DE CASTRO / Muniz Teixeira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário