Texto escrito e enviado para a pesquisa da Juliana Godói de Miranda Perez Alvarenga como proposta final da oficina: Encontros de formação permanente em diálogo: memórias-vida, narrativas de si e projetos profissionais.
Julho de 2021
Eliete Marcelino Dias Andrade. Este é meu nome. Sou filha de Pedro Marcelino e Luzia Corrêa. Meu pai fugiu da escola, era mestre de obras, carpinteiro, sonhador e muito alegre. Morreu de velhice, aos 86 anos, em fevereiro de 2018, feliz da vida por ter conseguido realizar seu maior sonho: voar de avião. Minha mãe era lavadeira, estudou os quatro primeiros anos do ensino fundamental. Mulher guerreira, criativa, professora da vida nos ensinou muito sobre independência financeira e sobre o poder do silêncio. Muito tímida e reservada, sofreu muito com a perda de seu amor. Completariam Bodas de Diamante- 60 anos de casados- em outubro de 2019… mas a morte veio e levou seu marido. Em maio de 2020 ela foi ao seu encontro. Aos 83 anos de vida nos deixou órfãos. O motivo de sua morte? Covid-19! Revoltante. Porém… superado. Temos que agradecer a Deus por tudo o que nos acontece. Foi isso que meus pais nos ensinaram.
Não poderia falar de mim sem falar de minhas raízes. Falar de minhas origens. Sou a primeira da família a fazer faculdade, estudar em uma Universidade Pública. Sou fruto dos sonhos de meus pais. E tenho muito orgulho de quem eles são. Sim… SÃO! Porque eles vivem em mim. Vivem em tudo e em todos que os conheceram. Por isso creio que jamais morrerão as suas memórias e os seus ensinamentos.
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Iniciei meu ensino médio no começo da década de 90, no Colégio Estadual Brasil em Mesquita, um município recém emancipado de Nova Iguaçu. Fiz todo primeiro ano de Formação Geral. Ao final do ano, vi que uma amiga tinha mudado de curso. Procurei a coordenadora e pedi para mudar também. A minha justificativa era de que não queria sair do Ensino Médio sem uma profissão. A ideia de sair da escola já pronta para o mercado de trabalho era algo recorrente no contexto em que vivia. Nunca tinha ouvido falar em faculdade. Isso era apenas uma palavra grande e sem significados para mim. Iniciei o magistério, ‘pagando’ as disciplinas do ano anterior, fazendo os trabalhos necessários para conseguir cumprir a carga horária exigida pelo curso. Não tinha o sonho de ser professora. Não queria abrir uma escola, como muitas das colegas naquela época pensavam. Queria apenas um diploma com uma profissão.
Ao finalizar o curso Normal, fui procurar emprego. Trabalhei como saladeira num restaurante do primeiro Shopping da cidade de Nova Iguaçu. Apesar de ter ouvido alguns colegas citar as palavras “vestibular” “faculdade” “universidade” confesso que ainda não era claro para mim prosseguir os estudos. Minha família era composta por muitos membros. Meus pais não haviam finalizado o ensino fundamental. Mal sabiam assinar seus nomes e fazer algumas poucas continhas. Sou a filha número 7 de 8 filhos. Dos mais velhos, apenas duas haviam finalizado o Ensino Médio. E já trabalhavam…
Minha cunhada abriu uma escola e fui trabalhar com ela, como professora, apesar dela desejar que eu fosse sua sócia. Não tinha maturidade para fazer uma sociedade. E ainda bem que não fiz. Meus planos eram outros… eu não tinha clareza, mas sabia que não queria aquela vida.
Interessante que, olhando agora para esse fato em meu passado, vejo com clareza como que uma vida sem planejamento nos leva a realidades não desejadas.
Como citei anteriormente, não queria ser professora. Porém, não lutei por aquilo que desejava naquele tempo. E isso me fez ir trabalhar numa escolinha particular próximo de minha casa, dirigida por minha cunhada, então pedagoga. Ela realizava seu sonho e queria me incluir no mesmo. Mas o meu sonho não era o mesmo que o dela. Ali entendi que trabalhar com crianças não era tão ruim… compreendi que trabalhar na Educação Infantil me aproximava de meus sonhos de infância: ser desenhista, artista, pintora. Mas não era feliz tendo que cumprir ordens esvaziadas de sentidos, cumprir prazos de conclusão de livros e cópias constantes. Trabalhar com as crianças sem ouví-las ou sem ensiná-las a exercitar seu pensamento crítico não fazia meu gênero. Isso incomodou alguns pais, logo a direção. Houve um desconforto. Saí da escola e fui trabalhar com projetos de EJA. Alfabetização Solidária, vindo do Governo Federal e depois, TRANSformar - projeto custeado pela FIRJAN. Fiz inúmeros concursos para trabalhar nas redes municipais de toda Baixada Fluminense e das proximidades. Apesar de ter passado em quase todas as provas, não fui chamada.
Resolvi estudar num PVNC - Pré vestibular para negros e carentes, uma das primeiras turmas deste projeto na Diocese de Nova Iguaçu. Estudávamos todos os finais de semana. Fiz a prova mas não passei. Nesse meio tempo, fiz concurso para o IBGE e consegui contrato de 3 meses como recenseadora. Foi uma experiência interessante! Depois, em 2000, fui para um curso comunitário, onde as aulas eram de segunda à sábado. Trabalhava o dia inteiro e a noite ia para o curso pré vestibular. Passei no vestibular em 2001. Entre UERJ de Caxias e a UFF escolhi estudar Pedagogia em Niterói, na UFF.
Na universidade compreendi melhor que para conquistar o meu lugar eu precisaria estudar bastante. Vencer barreiras do preconceito e me impor enquanto pessoa capaz de lutar por meus ideais. Consegui uma bolsa treinamento - auxílio concedido aos estudantes de baixa renda oriundos de escolas públicas, como era o meu caso - e uma vaga na Casa do Estudante Fluminense - residência próximo da UFF onde acolhia grupo de estudantes secundaristas e universitários que moravam longe e não tinham como pagar aluguel. Este espaço era gerido pelos próprios estudantes moradores. Fui aproveitar o meu tempo lendo os textos propostos pelos professores nos livros disponíveis na biblioteca, pois não tinha dinheiro para tirar cópias. Minha alimentação eram aquelas oferecidas pelo restaurante universitário. Roubava café da sala dos professores para não passar fome nas tardes do campus do Gragoatá. De manhã, tomava o café da sala onde trabalhava, comendo rapidamente um biscoito de água e sal, sem deixar migalhas e vestígios de minha fome de ontem pelo chão.
Conheci pessoas que mostraram a importância do estudo, do conhecimento, da história que estava vivendo. Aprendi a valorizar a minha história de vida... Minhas dificuldades, minhas origens.
Tive professoras que me tiravam como exemplo de luta e resistência, por morar longe, acordar às 4h da madrugada e conseguir chegar no horário certo para a aula que iniciava às 7h15. Isso me fortaleceu, me mostrou que eu era capaz de conquistar o que desejasse. Fazia questão de tirar as melhores notas. E assim o fiz.
Dediquei-me aos estudos o quanto pude, com auxílio das bolsas de treinamento, bolsas de monitoria - onde o estudante passa por um concurso interno para tornar-se auxiliar do professor em determinada disciplina, no meu caso, História da Educação V - e de extensão - O estudante realiza tarefas diversas em trabalhos e projetos abertos para a comunidade externa à Universidade através de cursos e outros afazeres.- Atividades que me ajudaram a formar meu espírito de pesquisadora.
Em 2003 aconteceu o concurso do magistério em Niterói. Eu não tinha dinheiro para fazer a inscrição. Como citei anteriormente, era uma estudante de baixa renda que contava com uma bolsa, que justamente naquele período estava com o pagamento em atraso. A professora com quem eu trabalhava como monitora pagou a inscrição do concurso para professores na Rede Municipal. Fiz a prova. Passei. Fui convocada em 2006. Há quinze anos trabalho nesta Rede. Aprendendo diariamente como trabalhar com crianças pequenas. Tendo parcerias que acrescentaram muito em minha maneira de pensar e agir com as crianças. Seja pela riqueza de suas contribuições, seja pelas maneiras desconcertantes que tinham de lidar com as crianças, e que muito me incomodavam, me fazendo ver que daquela maneira eu não trabalharia.
Hoje estou na terceira Unidade Municipal de Educação, trabalho bem próximo de minha residência porque acredito na importância da qualidade de vida para minha família. Acredito que toda criança deve ter seus pais sempre próximos cuidando, dando atenção, educando e construindo conhecimentos.
Tenho uma fome de conhecimento que não cabe em mim. Estou em constante busca, seja de mim mesma, seja de conhecimentos diversos que me auxiliem a ser melhor do que sou hoje, sejam de aprendizados que possam acrescentar no desenvolvimento do meu trabalho docente.
No momento em que percebi que ficaria em casa por tempo indeterminado, em função da pandemia do novo coronavírus, iniciei inúmeros cursos de aprimoramento profissional e de coisas que me interessavam. Dei início a uma pós graduação em Educação Infantil também. No momento estou na reta final.
Meus planos para o futuro é desenvolver com prontidão e capricho as tarefas que me cabem no exercício docente dentro da Educação Infantil, na UMEI Regina Leite Garcia. Vencendo os desafios impostos pela pandemia, onde precisamos reinventar as formas de trabalhar na educação através das redes sociais e meios tecnológicos, mesmo que nem todas as crianças tenham acesso a esses recursos.
Pretendo conseguir registrar com desenvoltura aquilo que me constitui enquanto pessoa e profissional, minhas lembranças, vivências e experiências. Planejo fazer o mestrado, pesquisando e escrevendo sobre a temática da memória e da formação docente. Pretendo escrever um livro. Estou resgatando a história de minha família. Acredito que quanto mais pesquiso sobre o passado de minha família melhor me entendo e compreendo o processo de minha existência. Da mesma forma, busco registrar em meu dia-a-dia o fazer docente. Quanto mais escrevo, mais consigo refletir sobre o que faço. Realizando o movimento de viver, registrar, ler, pensar, refletir, re-viver, re-escrever, re-ler e assim, vou articulando com os estudos que tenho feito, os textos que tenho lido, filmes e palestras que tenho assistido. Sempre buscando melhorar aquilo que foi escrito.
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Conforme havia comunicado antes, tenho feito esse movimento de escrita de minhas memórias faz um tempo. Abaixo alguns ensaios que fiz, com o objetivo de reunir elementos para minha autobiografia futura.
“Vá estudar!”
Na adolescência, aos 13 anos, queria trabalhar para pagar um curso que seria a realização de um sonho: ser desenhista.(...) Minha mãe não gostou da ideia e disse: “_Vá estudar!”
(...)
Hoje, como eu agradeço a minha mãe por essa proibição...
A professora que sou hoje, é resultado de inúmeras escolhas e renúncias realizadas ao longo da minha vida. Cada escolha tem uma consequência. O meu hoje é composto pela concentração das consequências das escolhas que vivi no passado.
Deixar o passado para trás é ainda uma dificuldade para mim. Pois para caminhar adiante e não cometer os mesmos erros, eu preciso consultar sempre o meu passado. Talvez por isso, às vezes, ele chega me assombrando.
Falar do passado, visitar o passado é realizar a maior viagem possível. Reviver passos, passagens, conversas e relacionamentos bons e ruins que me moldaram naquilo que hoje me tornei.
Relações humanas às vezes são traumatizantes. E alguns traumas eu vivi em minha vida profissional que fizeram o psicólogo do Setor de Saúde do Servidor pedir permissão para escrever sobre o meu caso: Como uma professora que sofre com a Síndrome de Burnout, depois de 2 a 3 anos afastada da sala de aula, decide retornar? Geralmente, 99% dos casos, os profissionais são realocados em outros espaços e/ou funções... ou pedem a aposentadoria precoce.
Mas Deus fez tudo acontecer em seu tempo.
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“06 de junho de 2020.”
Iniciei a leitura do Referencial Curricular para a Educação Infantil da Rede Municipal de Niterói e um sentimento forte surgiu em meu peito. O primeiro e maior sentimento foi o de PERTENCIMENTO. Eu me vi naquele documento. No início, quando se trata do levantamento histórico da Educação Infantil no município, são relatados vários eventos que aconteceram na cidade para discutir a Educação no município. Eventos estes que tive a oportunidade de participar, discutir, falar, escrever, votar, sugerir...
Ao ler as páginas 22/23 sobre o professor pesquisador, um fogo se acendeu em meu peito. Lembrei das discussões feitas na UFF sobre o assunto, quando ainda era apenas uma simples graduanda do curso de Pedagogia.
O professor pesquisador se constitui observador e participante, ator e autor de sua construção de conhecimentos. Vai aprendendo à medida que também vai ensinando.
Quando estava escrevendo minha monografia de graduação, fui orientada por uma excelente professora que um dia me falou da importância da autoria, uma escrita de sentidos e com a marca de quem a escreve. Ela me ensinou sobre a importância do registro no caderno de campo. Foi bastante difícil, e ainda é, realizar o registro diário de minhas impressões e observações a respeito de minha prática docente. Mas eu tento! Esforço-me. Não pretendo desistir.
Escrever para mim é mais que uma necessidade de sobrevivência. É mais que um simples hobby. É um ato de resistência. É algo que se torna insubstituível em minha vida. Passei bastante tempo distante dessa prática tão prazerosa. Hoje resolvi voltar às minhas primeiras paixões... minhas paixões mais primitivas.
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REDAÇÃO DA PROVA DE CONCURSO PARA PROFESSORA DE NITERÓI -2003.
Os homens vivem o presente, a partir da memória construída no passado e com os olhos voltados para os projetos futuros. Da memória construída no passado destacam-se mitos que permanecem como agradáveis lembranças que o tempo não consegue destruir. Um desses mitos, indelével na lembrança de muitos homens, é o da primeira professora.
Com as rápidas transformações processadas nos valores que sedimentam a sociedade, com o advento de uma era marcada pelo sentimento do descartável, ainda é possível por parte dos profissionais de educação, a construção do mito da primeira professora?
Este foi o tema da redação da prova para professor I, do município de Niterói do ano de 2003. Concurso que fiz, passei e fui chamada para trabalhar.
Hoje (2020) li a minha redação e o meu rascunho... Definitivamente cheguei à conclusão que, nesses 14 anos em que atuo na rede, eu tenho me tornado um mito... Uma professora inesquecível para muitos alunos. Isso é revigorante!
A marca
“Quem não se recorda – de forma agradável ou não – de sua primeira professora? Quem não o faz com saudades desse tempo pueril de momentos deliciosamente inesquecíveis e ao mesmo tempo, traumatizantes?
“Tia Vera”, a minha primeira professora, pode não ter deixado marcas muito profundas em minha vida. Mas ainda lembro de como era bom terminar logo os exercícios para pintar os desenhos que ela fazia em meu caderno: uma casinha com chaminé, uma flor, uma árvore às vezes. (...)
Todo mito é construção coletiva. É resultado de um conjunto de saberes, atitudes, conhecimentos, costumes vivenciados pelo coletivo. Sendo assim, há marcas que são deixadas em inúmeras pessoas onde em cada uma delas proporciona um significado diferente.
[Ao professor faz-se necessário] (…) registrar e refletir a sua prática docente e interagir com a sua turma. Podendo tornar-se uma valiosa fonte de inspiração para os mesmos. Ou para aqueles que ouvirem falar de seus feitos.
Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da Autonomia, relata um momento crucial em sua vida de escritor: um olhar beneplácito de seu professor de redação. Não era o primeiro professor. Mas foi aquele que proporcionou a confiança que ele precisava para dar início a sua vida de autor de maravilhosas obras.
Ainda é possível mudar. Ainda é possível permanecer na memória das novas crianças como aquela professora que me ensinou a aprender. Deixando hoje em nossas mãos a responsabilidade de nos tornarmos uma marca positiva na vida dessas crianças. Um mito.”
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Fazer scrapbook sempre foi um desejo meu. Durante a quarentena busquei cursos gratuitos na internet que me ajudaram a desenvolver esta técnica. Tenho feito um álbum contando a minha história através de fotos em páginas decoradas. Ao lado, a página sobre a minha profissão com a foto de minha formatura na UFF em 2006 e uma foto em meu trabalho, na UMEI Renata Magaldi em 2008.
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